A Mensagem do Papa Leão para o dia Mundial do pobre é apresenta uma profunda meditação sobre a virtude teologal da esperança, baseada na invocação do Salmista: “Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus” (Sl 71,5). Esta confiança inabalável surge apesar das “graves dificuldades e aflições mortais” do Salmista, que reconhece Deus como seu “rochedo e fortaleza”.
Esta esperança, que não decepciona, está firmemente enraizada no amor de Deus, derramado pelo Espírito Santo (cf. Rm 5,5). Por esta razão, os cristãos trabalham e lutam porque a depositam no “Deus vivo” (1 Tm 4,10). Cristo, pela sua ressurreição, é a “nossa esperança” (1 Tm 1,1); fomos salvos nesta esperança e nela devemos permanecer.
Testemunhas de Esperança e o Tesouro Verdadeiro
Os pobres são testemunhas privilegiadas de uma esperança forte e confiável. Devido à sua condição precária, feita de privações e marginalização, eles não contam com as seguranças ilusórias do poder e do ter. A sua esperança repousa, por necessidade, noutro lugar: em Deus. Esta realidade ensina a todos a fazer a passagem das “esperanças que passam” para a “esperança que permanece”, relativizando as riquezas terrenas (cf. Mt 6,19-20), pois o verdadeiro tesouro descoberto é a companhia de Deus.
A “pobreza mais grave” é “não conhecer a Deus”. Citando o Papa Francisco (EG 200), a pior discriminação contra os pobres é a “falta de cuidado espiritual”, sendo urgente oferecer-lhes a amizade de Deus, a Sua Palavra e os Sacramentos. É uma ilusão pensar que os bens materiais e o bem-estar económico são suficientes para a felicidade; as riquezas frequentemente conduzem a uma situação de pobreza dramática, sendo a primeira delas a ilusão de não precisar de Deus. Santo Agostinho adverte: “Tudo o que possuíres fora d’Ele é imensamente vazio.”
A Âncora e a Caridade Ativa
A esperança cristã é uma certeza que se baseia na promessa de Deus, que é sempre fiel. Simbolizada pela âncora, ela fixa o nosso coração na promessa de Jesus, orientando-o para o horizonte final dos “novos céus” e da “nova terra” (2 Pe 3,13).
Contudo, a esperança não leva ao isolamento; a “cidade de Deus” compromete-nos com as “cidades dos homens”. A esperança, sustentada pelo amor de Deus (cf. Rm 5,5), transforma o coração em terra fértil onde deve germinar a caridade. A Tradição da Igreja reafirma a circularidade inseparável de Fé, Esperança e Caridade, sendo esta última a mãe das virtudes e o “maior mandamento social” (CIC 1889). A caridade deve ser uma realidade “agora”, orientando as decisões para o bem comum. Quem carece de caridade rouba a esperança do próximo.
O Imperativo da Justiça
O convite à esperança exige que se assumam, sem demora, responsabilidades concretas na história. A pobreza possui causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas. Todos somos chamados a criar “novos sinais de esperança”, como instituições de acolhimento e o voluntariado, combatendo a indiferença.
Os pobres não são meros “objetos” da pastoral da Igreja, mas sim “sujeitos criativos” e os irmãos mais amados, cuja existência nos permite “tocar com as mãos a verdade do Evangelho”. O Dia Mundial dos Pobres visa recordar que eles estão no centro de toda a ação pastoral.
A responsabilidade social baseia-se no gesto criador de Deus, que dá os bens da terra a todos. Ajudar os pobres é, portanto, uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade. Como observou Santo Agostinho, seria muito melhor que ninguém passasse fome e que a caridade não fosse necessária. O Jubileu deve incentivar políticas de combate às antigas e novas formas de pobreza, assegurando que trabalho, educação, habitação e saúde sejam condições acessíveis de segurança para todos.
A mensagem finaliza confiando a esperança em Maria Santíssima, “Consoladora dos aflitos”, e ecoa o cântico do Te Deum: “In Te, Domine, speravi, non confundar in aeternum – Em Vós espero, Meu Deus, não serei confundido eternamente.” (LEÃO PP. XIV)

