Há vinte e cinco anos, o mundo viu, em direto, aquilo que a teologia sempre soube e a modernidade preferia esquecer: o mal existe, é real e tem rosto humano. Não é ausência de desenvolvimento, défice educativo ou “resíduo” de sociedades atrasadas. É escolha livre orientada contra o bem — o que Santo Agostinho chamou privatio boni, a corrupção de uma vontade criada para o amor e voltada contra ele. O 11 de Setembro não foi apenas um ataque político; foi uma epifania negativa sobre a condição humana pós-queda.
A Igreja não explica o mal — nunca o “explica” no sentido de o tornar compreensível ou aceitável — mas oferece-lhe um lugar: o mistério da liberdade, a Cruz como resposta de Deus ao sofrimento, e a esperança escatológica que recusa o niilismo. Perante o terror, o cristão não responde com ódio nem com ingenuidade pacifista, mas com discernimento: nomear o mal sem demonizar povos inteiros, defender a justiça sem idolatrar a segurança.
E é aqui que o percurso das democracias ocidentais falhou, reiteradamente, nestes vinte e cinco anos. Trocaram a doutrina da guerra justa — com os seus critérios rigorosos de proporcionalidade e último recurso — por guerras preventivas cujas consequências (Iraque, Afeganistão) alimentaram precisamente o extremismo que diziam combater. Sacrificaram liberdades civis fundamentais em nome de uma segurança que se tornou fim em si mesma, normalizando a vigilância de massas. Confundiram, com frequência culposa, uma religião inteira com os seus fanáticos, ferindo a convivência que pretendiam defender. E, no plano mais profundo, substituíram a pergunta teológica pelo mal por uma gestão técnica do medo — perdendo a linguagem que permitiria às sociedades dar sentido ao sofrimento coletivo.
Recordar o 11 de Setembro exige, pois, mais do que memória: exige exame de consciência civilizacional. Só um conhecimento da condição humana, que reconheça simultaneamente a dignidade e a queda do homem evita os dois erros simétricos: a ingenuidade que nega o mal e o cinismo securitário que, para o combater, trai os próprios valores que diz proteger.
