O abuso sexual cometido por um clérigo é, antes de tudo, uma violência contra uma pessoa concreta. Nenhuma função, reputação ou preocupação institucional pode diminuir a gravidade do que aconteceu. Para quem sofreu o abuso, podem ficar feridas profundas: na saúde, na confiança, nas relações e também na vida de fé. A comunidade, por sua vez, é atingida quando aqueles a quem confiava o cuidado se tornam fonte de dano.
A responsabilidade primeira pelo abuso é de quem o praticou. Mas a responsabilidade não termina necessariamente aí. Se autoridades eclesiásticas ignoraram denúncias, não protegeram pessoas vulneráveis ou permitiram que o perigo persistisse, devem reconhecer e responder também pelas suas próprias omissões. O silêncio não é neutralidade: pode agravar o sofrimento e permitir novos danos. A reflexão moral da Igreja exige que se reconheçam os erros, se acolha seriamente a dor das vítimas e se abandone qualquer atitude que favoreça o encobrimento.
Neste contexto, falar de retribuição não é atribuir um preço ao sofrimento, nem comprar o silêncio. É reconhecer que houve um dano e que podem existir obrigações concretas de reparação. O apoio económico pode ajudar a responder a necessidades reais, mas não substitui a verdade, a responsabilização, o acompanhamento nem a prevenção. A punição e a indemnização podem contribuir para recuperar o sentido de justiça, mas, isoladamente, não restauram a confiança perdida.
Também é importante distinguir planos. A responsabilidade penal do agressor e a eventual responsabilidade civil de uma instituição são questões próprias da lei do Estado; não se determinam apenas pelo facto de o agressor ser clérigo. Dependem dos factos, das provas e da legislação aplicável. A Igreja deve cooperar com a justiça civil e, ao mesmo tempo, proceder segundo as suas normas, sem confundir nem substituir uma justiça pela outra.
Perdão e misericórdia também não podem ser exigidos à vítima como condição para ser ouvida, protegida ou reparada. São caminhos pessoais; não dispensam a verdade nem anulam a justiça. Uma comunidade cristã não protege a Igreja escondendo o mal, mas servindo a pessoa ferida e prevenindo que outros sejam feridos.
Como paróquia, somos chamados a escutar sem julgar precipitadamente, a levar a sério qualquer denúncia e a encaminhá-la pelos meios competentes. A reparação começa por reconhecer a dignidade de quem sofreu e por não lhe pedir que carregue sozinho as consequências do abuso. A credibilidade da Igreja não se defende com silêncio: constrói-se com verdade, justiça, cuidado e compromisso persistente com a proteção de todos, particularmente a dos mais frágeis…

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