Também nas nossas ruas!
Em poucas semanas, as ruas de várias cidades europeias encheram-se de gente zangada e cansada. Em Madrid e Barcelona, em Paris, Bruxelas e Berlim, e também em Lisboa e no Porto, milhares de pessoas saíram para dizer que a vida ficou demasiado cara, que a casa se tornou inacessível e que o futuro parece cada vez mais incerto. Muitos destes protestos começaram de forma pacífica; alguns acabaram em fogos, detenções e feridos.
Não é difícil perceber porquê. Rendas que sobem mais depressa do que os salários, despejos, precariedade, serviços públicos fragilizados e uma geração de jovens que já não acredita poder construir um projeto de vida estável. Quando o contrato social deixa de garantir o essencial (uma casa digna, uma escola, um salário suficiente), a frustração procura caminho. E esse caminho é, tantas vezes, aproveitado por quem prefere o confronto ao diálogo. Por detrás de cada número há um rosto: uma família, um idoso, um jovem que adia a vida.
É neste cenário que celebramos o Dia Mundial das Missões, e a mensagem do Papa Leão XIV para o seu centésimo aniversário chega como luz oportuna: «Um em Cristo, unidos na missão». O Papa pede corações unificados, comunidades reconciliadas e uma colaboração generosa. A unidade não apaga as diferenças; faz delas lugar de comunhão. Cem anos depois, a missão continua a ser, antes de tudo, um caminho de comunhão.
Ora, missão não é só partir para terras distantes. É também habitar com o Evangelho a rua onde vivemos. Para a Igreja, isso significa recusar dois erros: a indiferença perante a dor de quem não consegue pagar a renda, e o alinhamento com este ou aquele partido ou movimento. A fé não é bandeira de um campo; é testemunho de caridade, justiça e paz.
Que pode fazer, concretamente, a nossa comunidade? Antes de mais, escutar. A escuta é o primeiro gesto missionário, sobretudo junto de quem vive o medo do despejo, o endividamento ou a falta de horizonte. Depois, apoiar quem já está no terreno (a Cáritas, a Misericórdia, o Município, os centros paroquiais e outras ONGs) com tempo, mediação e ajuda concreta. E ainda formar-nos para uma participação cívica não violenta, crítica e construtiva, capaz de denunciar a exploração sem alimentar o ódio contra proprietários, migrantes, turistas ou agentes públicos.
A não violência do Evangelho não é passividade: é enfrentar o conflito sem reproduzir a sua lógica. O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Virgílio Antunes, lembrou que a luta pela habitação deve ser mais do que levantar bandeiras, exigindo respostas legislativas e rejeitando o aproveitamento político.
Neste domingo, rezemos pelas missões e pelos missionários, mas rezemos também pelos vizinhos sem casa segura e pelos jovens sem rumo. Uma comunidade reconciliada, fraterna e solidária é o sinal mais credível de que Cristo nos faz um só. Que essa seja a nossa missão, a começar à porta de casa.
