“Vem comigo.” O convite que abre a nossa Quaresma de 2026 não é um apelo ao isolamento, mas um chamado à verdade. Na sua mensagem para este tempo favorável, o nosso Patriarca, D. Rui Valério, propõe-nos um itinerário que vai muito além dos rituais habituais: desafia-nos a uma verdadeira alfabetização espiritual.
O Diagnóstico: O Ruído que nos Analfabetiza
Vivemos tempos paradoxais. Nunca comunicámos tanto, mas raramente dissemos tão pouco sobre o que realmente nos habita. O Patriarca alerta para um “silencioso analfabetismo humano e espiritual”: aquela incapacidade de dar nome às nossas emoções, de discernir os nossos desejos e de compreender o que realmente move as nossas escolhas.
O resultado? Uma vida fragmentada. Tornamo-nos estranhos para nós próprios, agindo de forma reactiva e deixando-nos manipular pelas pressões do imediato. Quando perdemos a gramática da interioridade, perdemos o sentido da própria vida.
A Quaresma como Escola de Vida
Perante este cenário, a Igreja convida-nos a regressar à “escola do Evangelho”. A Quaresma é o tempo de sentar novamente aos pés de Jesus para aprender a arte de viver. Com Ele, aprendemos a:
Nomear o que sentimos: A sede de sentido, a fragilidade, o medo e a esperança.
Discernir a realidade: Não apenas ver o que acontece, mas compreender o que Deus nos pede em cada momento.
Curar as feridas: Deixar que a luz divina ilumine as zonas de sombra da nossa história pessoal e familiar.
Para nos ajudar nesta tarefa, a nossa Diocese promoverá quatro encontros focados nas tentações que hoje mais desafiam a fé, a família, os jovens e a própria Igreja. É uma oportunidade única de passarmos da “penumbra” para a clareza da verdade.
Fé em Ação: A Caridade que Reconstrói
A espiritualidade cristã nunca é abstrata. O jejum que liberta e a oração que educa o coração desaguam naturalmente na caridade que cura.
Este ano, o fruto da nossa Renúncia Quaresmal terá um destino muito concreto e urgente: o apoio às vítimas das tempestades que assolaram o nosso país, numa ação coordenada pela Cáritas Diocesana de Lisboa. É o nosso “sim” à reconstrução de vidas que foram fustigadas pela intempérie. Vale a pena recordar que, no ano passado, a nossa generosidade totalizou mais de 195 mil euros, permitindo apoiar missões em Madagáscar e associações de defesa da vida e re-inserção social. Que a nossa entrega em 2026 seja igualmente fecunda.
Uma Travessia para a Plenitude
A Quaresma não nos pede perfeição imediata; pede-nos disponibilidade para caminhar. É uma travessia da sombra para a luz, da dispersão para a unidade interior.
Que este tempo nos devolva a unidade e nos torne plenamente humanos — porque plenamente habitados por Deus. Sob o olhar atento da Virgem Maria, a mulher da escuta, iniciemos este caminho de conversão e esperança.

