A Quaresma voltou a bater-nos à porta. E, com ela, vem aquele convite anual que, embora pareça repetitivo, é sempre uma oportunidade de “fazer um reset” à nossa vida espiritual. Este ano, a mensagem que nos chega do Papa Leão é muito direta e tem um título que não deixa margem para dúvidas: “Escutar e jejuar”.
Muitas vezes, olhamos para a Quaresma como um tempo de “não”: não comer carne à sexta-feira, não fazer isto ou aquilo. Mas o Papa desafia-nos a ir muito mais longe. Este tempo é, acima de tudo, um convite para voltarmos a pôr Deus no centro, para que o nosso coração não se perca no barulho das preocupações e das notificações do telemóvel que nos roubam o sossego.
Escutar é o primeiro sinal de amor
O texto lembra-nos que Deus é o primeiro a escutar. Ele ouviu o clamor do seu povo no Egito e não ficou indiferente. A nossa primeira tarefa nesta Quaresma é aprender a ouvir como Deus ouve. Não se trata apenas de ler a Bíblia de forma mecânica, mas de deixar que a Palavra de Deus nos abra os ouvidos para o que se passa à nossa volta.
Será que estamos a ouvir o “grito” dos que sofrem na nossa própria rua? Será que ouvimos as injustiças que, por vezes, preferimos ignorar? Escutar a Palavra na igreja deve educar-nos a ler a realidade com outros olhos — e outros ouvidos.
O jejum que realmente custa
Sobre o jejum, a mensagem é muito prática. Sim, a abstinência de alimentos continua a ser importante para nos lembrar do que é essencial, mas há um “jejum” novo que nos é proposto: o jejum das palavras que ferem.
O Papa faz um apelo que nos toca a todos: desarmar a linguagem. Nesta Quaresma, o grande desafio é renunciar àquela crítica fácil, à fofoca (o nosso “falar mal de quem não está presente”), aos julgamentos precipitados e à agressividade que, infelizmente, tanto abunda nas redes sociais e até nas nossas conversas de café. Que tal trocarmos as palavras ácidas por palavras de esperança e gentileza? Às vezes, custa mais morder a língua do que abdicar de uma refeição, mas é esse o caminho da verdadeira conversão.
Caminhar em conjunto
Por fim, não nos esqueçamos de que ninguém faz a Quaresma sozinho. As nossas paróquias e grupos são o lugar ideal para este caminho partilhado. A conversão não é só “eu e Deus”; é também a forma como nos relacionamos uns com os outros, a qualidade do nosso diálogo e a nossa capacidade de acolher quem sofre.
Que estas semanas sejam, para a nossa comunidade, um tempo de silêncio interior, mas de grande barulho no que toca à caridade e à construção da paz.

