A Igreja Católica é, por definição, “universal”. No entanto, quem vive o dia a dia de uma paróquia sabe que, por vezes, a maior dificuldade não é dialogar com o mundo exterior, mas sim com o grupo que reza no banco ao lado. Por que é que, partilhando o mesmo Baptismo e a mesma fé, sentimos tanta dificuldade em trabalhar e celebrar em comunidades mais amplas, como, por exemplo, a vicarial? Esta é uma reflexão necessária para o crescimento da nossa comunhão.
A Fragmentação das “Tribos”. Ao longo das últimas décadas, a Igreja foi enriquecida por diversos movimentos, pastorais e novas comunidades. Se, por um lado, estes grupos trazem um novo ardor e dinamismo, por outro, podem gerar, sem querer, “guetos espirituais”. Muitas vezes, o fiel identifica-se primeiro como membro de um movimento específico (seja ele carismático, tradicionalista, vicentino ou escuteiro) e só depois como paroquiano. Esta lealdade excessiva ao grupo em detrimento da comunidade paroquial cria “ilhas” de convivência onde os métodos e linguagens se tornam fechados, dificultando a integração em projetos comuns que exigem unidade.
O Choque das Sensibilidades. A celebração da Eucaristia, que deveria ser o ápice da nossa unidade, torna-se frequentemente um campo de tensão. Existem grupos que privilegiam o silêncio, o rigor do rito e a tradição; outros sentem-se mais próximos de Deus através da música festiva, da espontaneidade e do convívio. O problema surge quando estas sensibilidades não se cruzam. A paróquia corre o risco de se fragmentar em horários de missa “temáticos”, onde cada grupo se refugia na sua bolha de conforto, evitando o desafio de celebrar com quem sente e expressa a fé de forma diferente.
Marta e Maria. Outro muro invisível divide frequentemente aqueles que focam a sua vida cristã na adoração, no estudo da doutrina e na vida sacramental (uma visão mais vertical) e aqueles que privilegiam a justiça social, as pastorais de rua e a intervenção no mundo (visão horizontal). O conflito instala-se quando um lado olha para o outro com desconfiança: uns sendo rotulados de “alienados” e outros de “meros agentes sociais”. Esta falta de reconhecimento mútuo impede que a paróquia ofereça um testemunho completo do Evangelho, que é, indissociavelmente, oração e serviço.
O Caminho da Conversão Comunitária. O Papa Francisco tem alertado para o perigo da “autorreferencialidade” — grupos que se olham apenas ao espelho em vez de olharem para a missão comum. Superar estas barreiras exige o que podemos chamar de “ecumenismo paroquial”. Isto passa por saber ceder protagonismo, aceitar que o nosso método não é a única via de santidade e reconhecer que a beleza da Igreja reside precisamente na sua diversidade.
Trabalhar em conjunto não significa que todos tenhamos de ser iguais ou abdicar do carisma próprio de cada grupo. Significa, sim, que todos os carismas devem estar ao serviço de uma missão maior: a construção do Reino de Deus na nossa paróquia e nas suas periferias. Como resultado imediato da Visita Pastoral à nossa comunidade paroquial, criemos o propósito de ser uma verdadeira “comunidade de comunidades”, onde a caridade seja a única linguagem que todos, sem exceção, conseguem entender.

