A Fé que nasce do rio

A procissão que todos os anos leva a imagem da capela até à Igreja da Sagrada Família,

Senhor Jesus dos Navegantes

Antes de Paço de Arcos ser bairro residencial, foi enseada de abrigo. Pescadores e mareantes, muitos deles vindos de longe, recolhiam-se aqui quando a barra do Tejo se tornava perigosa. Foi desse medo concreto — e da confiança que lhe respondeu — que nasceu a devoção ao Senhor Jesus dos Navegantes: não uma piedade abstracta, mas uma invocação moldada, literalmente, pela geografia do perigo.A ermida já existia antes de 1698, embora a data exacta da sua fundação continue por esclarecer — as fontes disponíveis não permitem ir mais longe do que isso, e seria desonesto fingir maior precisão. Ao longo dos séculos passou por mãos diversas: foi propriedade de Dona Teresa Eufrásia de Menezes, depois doada à Companhia de Jesus, e mais tarde entregue ao Hospital de Todos-os-Santos e ao Hospital de São José após a expulsão da ordem. Por volta de 1873 encontrava-se em estado de abandono e foi reedificada; as próprias fontes divergem, porém, sobre se essa obra se completou nesse ano ou em 1877. Não escondemos essa dúvida. A honestidade histórica é também uma forma de respeito pela tradição que celebramos — e talvez tenha havido, simplesmente, duas fases: uma re-consagração e, depois, a conclusão material das obras.

Foi em Setembro de 1873, segundo a memória paroquial, que se realizaram as primeiras festas em honra do padroeiro na sua forma moderna, tendo como primeiro mordomo Joaquim Lopes — o Patrão Lopes, nascido em 1798 e falecido em 1890 —, homem que arriscou repetidamente a vida para salvar náufragos na barra do Tejo. A sua figura pertence a um plano distinto do da devoção: não é objecto de culto, mas de memória cívica. E, no entanto, a cultura religiosa de Paço de Arcos sempre articulou os dois planos sem os confundir — pede-se auxílio a Deus, mas honra-se também o homem que enfrenta concretamente o perigo. A fé cristã nunca dispensou a coragem humana.

A procissão que todos os anos leva a imagem da capela até à Igreja da Sagrada Família, e depois até à zona ribeirinha para a bênção das embarcações, não é folclore nem cenário. É a repetição anual de um gesto teológico preciso: Cristo desce até ao lugar do perigo. Não fica na terra segura da igreja; vai à água, onde os homens do mar continuam, hoje sob outras formas — bombeiros, salva-vidas, associações náuticas —, a jogar a vida pelos outros. A presença dos Bombeiros Voluntários no transporte da imagem, hoje habitual, não é um acrescento moderno descontextualizado: é a antiga figura do pescador-salvador a encontrar, nas instituições contemporâneas, o seu equivalente actual.

Paço de Arcos já não vive do mar como viveu. Tornou-se zona residencial, turística, urbana. Mas a festa permanece porque recorda algo que a mudança social não apaga por si só, e que exige de nós vigilância: que uma comunidade se define não apenas pelo que produz ou pelo que vende ao turismo, mas por quem chora os seus afogados e bendiz os seus salvadores. Que essa memória continue a ser isso mesmo — memória viva, com raiz religiosa e sentido comunitário — e não se dissolva em simples espectáculo.

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