Eucaristia, Cruz e Exaltação nas Festas do Senhor Jesus dos Navegantes

O Senhor que vem do mar!

Há uma teologia inscrita no próprio percurso das Festas do Senhor Jesus dos Navegantes — uma teologia que começa, como toda a vida cristã, na Eucaristia. É pela manhã, reunidos à mesma mesa, que a comunidade paço-arcense se prepara para aquilo que se há-de viver à tarde: porque não há procissão que valha sem primeiro haver Comunhão. A Eucaristia matinal é o centro gravitacional de todo o dia — dela irradia o sentido de tudo o resto.

Depois, à tarde, o mar torna-se lugar teológico. O Senhor Jesus dos Navegantes chega da Barra, junto ao Forte de S. Julião, em procissão náutica — travessia que recorda a dos pescadores que, ao longo de séculos, confiaram a vida às águas do Tejo e do Atlântico. Não é apenas cenografia: é memória viva de Patrão Joaquim Lopes, herói que arriscou a própria vida para salvar náufragos, e a quem esta devoção tanto deve. Nele, a fé cristã encontra a sua tradução mais concreta: quem se lança ao mar por amor ao próximo revela, sem o proclamar, o mistério da Cruz — dar a vida para que outros vivam.

O desembarque na praia dos pescadores é já um pequeno mistério pascal: o Senhor que atravessa as águas é acolhido por um povo que O espera na praia como outrora os discípulos aguardavam o Ressuscitado junto ao lago. Segue-se a ida à Igreja Paroquial, onde se profere o primeiro sermão — palavra que interpreta o gesto, como sempre a Igreja fez desde a manhã da Ressurreição.

Depois, juntamente com Nossa Senhora da Bonança e S. Sebastião, o Senhor percorre as artérias de Paço de Arcos, junto à Marginal, até ao Palácio dos Arcos, onde se proclama o último sermão, da varanda do próprio edifício — gesto de particular densidade histórica e teológica. Foi ali, ou por vontade de quem ali viveu, que nasceu esta devoção: D. Maria Clara de Meneses mandou erguer a primitiva Capela do Senhor Jesus dos Navegantes, berço de tudo o que hoje celebramos. Que a palavra final se proclame precisamente desse lugar é como se a Palavra regressasse à sua própria origem, fechando um círculo entre quem fundou o culto e quem hoje o continua.

Só depois o Senhor regressa à sua Capela fundacional. Este regresso à origem não é anti-clímax, mas exaltação: assim como a Cruz, instrumento de morte, foi erguida em glória, também a imagem regressa ao lugar de onde partiu, já transfigurada pelo louvor do povo que a acompanhou.

Nestes gestos — Eucaristia, travessia, desembarque, pregação, procissão, palavra final na varanda da fundadora e regresso — a nossa devoção repete, à sua escala, o mistério pascal: Cristo que atravessa a morte para chegar aos seus, e que, exaltado, continua a percorrer as ruas da nossa vida.

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