A Assunção de Nossa Senhora!

um dogma contra o medo de morrer!

A 15 de agosto, a Igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora ao Céu, em corpo e alma. Proclamado dogma por Pio XII em 1950, na constituição Munificentissimus Deus, este mistério não é um adorno devocional periférico: é uma afirmação central sobre o destino do corpo humano e, por extensão, sobre o sentido da morte. Maria, primícia da Igreja, antecipa aquilo que a fé cristã promete a todo o crente: a ressurreição da carne, não a evasão de um “espírito” que se liberta de um corpo descartável.

É precisamente aqui que este dogma colide, de forma quase violenta, com sensibilidades dominantes na sociedade portuguesa da terceira década do século XXI. Vivemos numa cultura que investiu enormes recursos simbólicos e materiais em adiar, esconder e estetizar a morte, sem nunca a integrar. A fragilidade — a doença, a velhice, a dependência — tornou-se quase inconfessável em público. Os hospitais e os lares substituíram a casa como lugar de morrer; o luto perdeu ritual e tempo social; fala-se de “envelhecimento ativo” e de “qualidade de vida” com uma insistência que, sendo legítima, por vezes trai o desconforto real perante a decadência do corpo. A publicidade, as redes sociais, a cultura do desempenho contínuo empurram a velhice e a doença para fora do campo visível, como se fossem falhas de gestão pessoal e não a condição comum de toda a vida criada.

Neste contexto, a Assunção não oferece consolo barato nem promessas de imortalidade terrena. Oferece algo mais exigente: a afirmação de que o corpo frágil, mortal, sofredor, tem dignidade eterna porque foi assumido por Deus na Encarnação e é chamado à glória na Ressurreição. Maria não é assunta apesar do seu corpo, mas com ele. A fé católica não resolve o escândalo da morte com eufemismos — resolve-o com uma esperança concreta, corporal, que atravessa o sofrimento sem o negar.

Isto tem consequências pastorais imediatas. Uma comunidade que celebra a Assunção não pode, sem contradição, tratar os seus idosos e doentes como um problema logístico a resolver longe da vista. A visita aos doentes, o acompanhamento dos moribundos, a valorização do sacramento da Unção não são gestos de outra época: são a prática coerente de uma fé que recusa separar corpo e alma, presente e eternidade. Se a sociedade envolvente tende a gerir a morte administrativamente, a paróquia é chamada a habitá-la humanamente — com presença, oração e verdade.

Celebrar a Assunção, hoje, em Portugal, é um ato quase contracultural: é dizer, contra o silêncio incomodado do nosso tempo, que a fragilidade não é vergonha e que a morte não é o fim da história de ninguém.

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